sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Beira-mar

Na peleja, céu azul
Azulejo, corpo nu


Minha estante, tua cor

Um instante, teu calor

sábado, 9 de julho de 2011

Tanto faz

Ainda venho à sacada, todas as noites.
As lembranças e os cigarros nunca se apagam.
Dois anos ou mais.

sábado, 11 de junho de 2011

Disparo.

Depois de cruzar a última esquina, segurando uma garrafa quase vazia de vodca na mão - pra ser exato - com um pouco menos da metade e fumando seu último cigarro, ele chegou a porta da festa. Um pub sujo, mal localizado, frequentado por gente que se conhece pelos sobrenomes, pelas universidades que frequentam, pelos países que viajaram ou pelos empregos dos pais. Não se consideram burgueses, pois, ouvem músicas engajadas, falam em gírias descoladas e, suas roupas de grife, são rasgadas e customizadas pelas empregadas da família.

Ao chegar, o segurança do local que, por um instante pensou em não deixá-lo entrar, afinal, já era tarde e o rapaz estava extremamente pirado, acabou liberando sua entrada, após pedir que dispensasse a garrafa na calçada. Ele virou em um só gole, bebendo e babando toda a vodca, arremessou a garrafa em uma parede do outro lado da rua, espalhando os estilhaços de sua fúria.

O local estava cheio, bastante movimentado, muita gente alucinada. Copos, garrafas e casais se beijando por todos os cantos. As luzes e o som alto o deixaram acelerado. Todos estavam dançando e curtindo cada instante. Ao encarar as pessoas, observava que todos riam, se abraçavam, gesticulavam, falavam aos berros e bebiam muito, algo muito parecido com felicidade.

Foi ao bar e pediu uma dose do uísque mais barato. Virou em frações de segundo! Pediu a saideira ao barman, perguntando onde era o banheiro.

Se direcionando até lá, esbarrava em todos que estavam em sua direção. Parecia não ver ninguém. Entre os esbarrões, chutes e empurrões, chegou ao banheiro, aparentemente, vazio. Caminhou até a última porta. Encostada, forçou para abri-la, mas ouviu alguém reclamando. Continuou forçando até abrir e se deparar com dois caras que estavam se drogando. Eles reclamaram com o rapaz que, os afrontou e empurrou-lhes contra a parede. Falou que iria ser breve ao usar o banheiro: “Só quero dar um tiro, porra!”. Os dois sujeitos então relaxaram a tensão do momento e caíram na gargalhada, indagando o rapaz: “Uma cafungada!? Poderia ter falado antes”.

Afastaram-se, abrindo caminho para ele que, entrou rapidamente e trancou a porta. Os dois saíram rindo alto e gritando: “Aproveite a festa, amigo! Divirta-se e... Boa viagem”. Porém, antes que cruzassem a porta, ouviram um tiro seco, seguido de um barulho de queda e uma poça de sangue que atravessava a fresta.

domingo, 5 de junho de 2011

Briga de casal

Ela fala o que quer, insiste, você escuta.
Você diz o que pensa, desiste, pede desculpa.

sábado, 29 de janeiro de 2011

Rir. O breve verbo, rir.

Ana odiava ir à escola. Chorava dia e noite, trancada, lendo Cora. Sonhava com as risadas e piadinhas dos colegas de classe, sem classe. Ótima média em matemática e artes. Gostava de ler e jogar xadrez. Mas, tudo isso se desfez. Começou quando descobriram que seu nome lia-se de trás pra frente. Pobre Ana, na mão desses dementes. Mas, como mágica, isso se rompeu em um passe. Quando um tal de Natan entrou em sua classe.

sábado, 17 de julho de 2010

Para fins comerciais

Entrou numa loja de discos no centro da cidade, procurou nas prateleiras e nada. Então, perguntou à balconista: “Vocês têm o Blizzard of ozz do Ozzy e o Chega de Saudade do João Gilberto?”.

Com cara de dúvida, a moça procurou nos arquivos do computador, localizou a numeração de ambos, foi até as prateleiras onde poderia encontrá-los e apanhou os discos. Voltou com os vinis um pouco surrados pelo tempo, disse o valor, o rapaz chiou e pediu um desconto, ela concordou e colocou os vinis na sacola. Dinheiro pra cá, discos pra lá. “Obrigado”, disse ele. “Volte sempre”, respondeu a moça.

Ela achou interessante seu gosto musical e pensou: “Assim como eu, tão jovem e não procurou músicas para fins comerciais!? Isso é um bom sinal” . Ele achou interessante o jeito que ela se vestia. Porém, não falaram nada um para o outro. As boas impressões se limitaram aos pensamentos.

Passaram-se três dias. Ele pensando nela. Ela, nele. No dia da venda dos vinis, ela estava chateada, pois na mesma manhã, sua mãe havia sido hospitalizada. Devido à preocupação, acabou não sendo tão simpática com rapaz, como era de costume com os clientes da loja. “Como será seu nome? Porque não perguntei?", lamentou a garota.

O rapaz não tinha mais dinheiro pra voltar à loja. O montante da primeira compra, havia conseguido com a venda de sua guitarra. “Como a atendente se chama? Não tinha crachá e eu, tímido que só, não tive coragem em perguntar seu nome. Aliança não tem... Isso é um bom sinal!”, pensou o jovem.

Após um mês e alguns dias de economia, ele conseguiu juntar certa quantia para adquirir outro vinil e, é claro, com a mais obvia intenção de ver a balconista novamente. Tomou um banho demorado, cantando bem alto no chuveiro. Ele mesmo estranhou sua euforia, quando enxaguou os cabelos, retirando o condicionador que, nunca havia utilizado. Calçou seu all star preto e sua camisa do Creedence. Usou escondido o perfume de seu pai e partiu.

Seu coração batia forte. Sua respiração, cada vez mais ofegante. Ensaiou algumas frases para impressionar e elaborou algumas perguntar para fazer. Sem hesitar, pensou em um dia e lugar para convidá-la a sair.

A loja estava próxima, dois quarteirões ou menos. Ele desacelerou os passos, sentia suas mãos frias, sempre de cabeça baixa. O farol abriu para a passagem dos pedestres, ele se apressou. Seus pensamentos estavam tão fantasiosos que não percebeu que, uma moto cruzava o sinal vermelho. Ouviu buzinadas e alguns gritou na calçada. Com menos de três metros, mostrando habilidade e equilíbrio, o motoqueiro fez um ziguezague, desviando do rapaz. “Motoqueiro filho da puta! Não viu o sinal, não!?”, esbravejou.

Depois do susto, o jovem cruzou a rua da loja. Por alguns minutos, o susto veio a calhar, pois controlou sua ansiedade, substituindo paixão por medo. Mas, todo esse turbilhão de sentimentos voltou à tona quando avistou a loja.

Pronto! Chegou até a loja de discos. Forçou a maçaneta e observou que a porta estava fechada. “Hora do almoço!?”, pensou. Conferiu no relógio e advertiu-se, afinal faltava quinze. O vidro fume e empoeirado, impossibilitava a visão de fora para dentro. Ele se afastou. Olhou para cima, notou a ausência da fachada luminosa. No lugar, havia uma faixa de pano, com os dizeres: “Aluga-se para fins comerciais”.