terça-feira, 1 de maio de 2012

Mendigo-a-dois

Do pau-de-arara a ilusão da capital. Trabalhou em firma boa, mas, após a grande greve, um canteiro de obras foi a solução. Sem estudos, agora mora na rua da amargura, s/n. Junta lata, faz carreto, sem careta, junta tudo, só pra beber, comer algumas sobras e fumar igual Caipora. 

Um dia desses, uma madame quis fazer grande gesto, lhe deu um troco gordo. Logo pensou numa marmitex caprichada e numa garrafa de cachaça: “Brigadão, senhora! Hoje peço um prato executivo, só assim pra me sentir doutor”. Ela achou graça, sorriu um sorriso amarelo-dourado. Ele, educadamente, retribuiu com seu sorriso amarelo-apodrecido.

Partiu até o velho restaurante por quilo, pediu pra viagem e, bem humorado, brincou: “Por favor! Marmita gigante e branquinha da boa. Será a segunda melhor viagem de minha vida... Pois, da primeira não abro mão, será meu regresso pro sertão”! 

Pegou seu pedido e foi pra escadaria, longe da grande maioria, se preparou para o esperado desjejum. Mas, como bom temente a Deus, antes da primeira colherada, colocou a comida no colo e ergueu suas mãos, dizendo: “Brigado, Deus nosso-senhô! Sei que essa marmita dá pra dois, porém, minha fome é do tamanho do meu desapontamento e, mesmo sem cabimento, te agradeço, mas, não te ofereço. Amém”!

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Bela Augusta!

Embaixo da terra, no atalho de ferro, entre vidros e emoções, vejo o mundo pela raiz, no pulsar das canções. Cortando o caminho do caos, olhando para cima, imaginando carros, rios podres e pessoas infelizes. No metrô, lendo Nietzsche, minha consolação para dias tristes, a morte de minha tragédia, uma fuga em páginas cheirando mofo e tinta velha. 

Salto na seguinte estação, caminhos para perdição, apressado para minha consolação. Afinal, a noite já vive! Quero música, quero gente, rock ou samba, meu paraíso intimo, sentir meus pulmões trabalhando e minhas pernas bambas. Quero sair derrotado, agitado, quero mais uma dose, por gentileza. Subir na mesa! 

Seguro na mão do amor próprio. Somos cúmplices, triviais, correndo feito idiotas, contra o cais. Ultrapassando todas as linhas, indo de ponta a ponta. Da burguesia a ponta podre, da alegria a azia. Juntando tudo e queimando-as livremente, inconsequente, seguindo o ritmo do meu coração. O dia chega e, no contra fluxo da rotina, já sem emoção, fecho a cortina, pois, meus olhos são boêmios, habituados com a escuridão.

segunda-feira, 12 de março de 2012

O bastão do temor

A vitoria causa medo, seja no individuo único ou em uma grande equipe com o mesmo objetivo. O surto do medo opera de forma silenciosa, explode como dinamite, quase que inevitável, em um momento exclusivo, no ápice, na hora em que a confiança cria uma pequena fenda. E, é nessa brecha que o medo se encaixa e ganha força, ali naquele pequeno espaço o medo cresce e se alimenta, tornando a luta intima e particular. Por exemplo, um corredor que está na liderança, seja de atletismo, bicicleta, moto ou piloto de automobilismo, passa a corrida inteira sem que o medo lhe atinja. Preocupa-se e foca em seu rendimento, busca prever alguns possíveis fatos repentinos, corrigindo detalhes e esperando a hora do triunfo. Só que ele se depara com a ultima volta e, é neste momento, nessa ultima curva, que um alarme dentro de sua mente ecoa. Basta visualizar a linha de chegada para titubear. Agora a luta não dura horas e não é mais contra outros competidores. A partir desse momento ele está lutando para não olhar pra trás, temendo alguma ultrapassagem, colocando em duvida sua capacidade, seu foco oscila, a boca seca e as mãos transpiram. Até cruzar a linha de chegada, seu companheiro maior é o “se”. Só que, quando a faixa bate no peito ou quando avista a bandeira flamulando no alto, ele desaba. Em frações de segundo o medo vira gloria, o esforço se torna mérito e sua honra é lavada de suor, sangue e vitoria. Quando pára e observa seu feito, como se estivesse fora dele, enxerga que só na ultima volta se tornou um corredor. Só quando colocou em duvida sua capacidade percebeu que, para ser um vencedor, não deveria subestimar os fatores externos, tampouco os internos e que sua consagração não era à base do esmo. E, só quando temeu a derrota, pode preparar seu paladar para deliciar-se com a vitoria, se tornando merecedor de si mesmo.

domingo, 25 de dezembro de 2011

Persona non grata

Conselho sem cara, caráter, me quer bem? Mentiras vazias, azia e vãs. De Deus o ajustamento virá. Não há de virar a página, não há o que perdoar. O troco eu troco por justiça, por sua língua, inundada de ira e ínguas, terás minha cobiça. 

Como disse outrora, o pecado capital mora no interior. É sabido que o bem prevalece ao rancor e condena seu temor por falta de libido e postura boçal. Teu sopro não foi em palha ou vidro, fora em algo que me valha. O tijolo e o cimento tornaram seu ódio em algo fútil, prevalecendo o nosso sentimento e vida útil.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Sinopse.

Ao apreciar doses abundantes de uísque barato, dentro de um bar sujo, extremamente fedido, mal frequentado e repleto de consternações, um homem faz eclodir múltiplos deslumbramentos de sua natureza humana.
 
Boa parte dos diálogos são inteligentes, repleto de sarcasmos e pressupostos. Personagens enigmáticos compõem a trama, incitando este homem em inúmeras situações. Porém, nosso personagem, em algumas ocasiões, insiste em responder aos desconhecidos: “O mundo já estava assim quando cheguei, porra”!
 
A maioria das cenas é narrada por uma câmera em primeira pessoa, com enquadramento de destaque em sua percepção dos fatos. Momentos acelerados para registrar outra dimensão do local, atirando a vida deste homem sobre os olhos dos expectadores. Outrora, minutos desacelerados para mostrar o caos dentro de sua mente. Fotografia intimista, música eletrônica, rock oitentista e múltiplos cortes secos. Contém diversas cenas de violência, drogas e sexo.
 
Em cartaz, nos cinemas não muito distantes de você.
Afinal, a vida é um filme... Corta!

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

No interior.

Um amigo meu atravessou o estado para passar ao lado de sua mãe os últimos dias de vida dela. Dias tristes e chuvosos que se arrastaram naquela semana. Ela, ali deitada, só falava com os olhos. Ele previa o fim, mas guardou seu sentimento na garganta.

Quando ela partiu, o coração dele bateu mais forte. Mas, no fundo ficou aliviado, pois o sofrimento, enfim, havia acabado. O céu se abriu meio ao tempo cinza. Um forte sol, inexplicavelmente, surgiu de forma alegórica.
 

Ouvi este relato da boca dele, quando regressou. Arrepiei-me e emocionado o abracei. Um abraço diferente, de olhar e com a forma de minha expressão. Era o sétimo dia do ocorrido. Não rolou nenhuma rocha, ela não ressuscitou.
 

Porém, essa história tirou a pedra que travava meu caminho. Entendi a metáfora de Deus e ele sabe do que estou falando, pois entendeu a minha também, trazendo esta historia até a mim.