quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Sem título.

Tenho forte ligação com a minha infância e todos os elementos que a compõe. Ficava na rua o dia todo. Naquela época, o relógio era, somente, um objeto pendurado na parede da cozinha, que fazia tic-tac no silêncio da noite. Infância querida. Creio que minha geração foi à última a ter o prazer de jogar bola em campinhos de terra, brincar descalço sem medo de tétano, brigar por nada (que parecia tudo), sentir-se feliz por andar de trem, enfim, um pouco de saudosismo não faz mal a ninguém.

Eu tive uma infância mágica. Tão pura que, acho curioso o dia-a-dia das crianças de hoje. Gostaria que meus filhos tivessem uma infância igual a minha. Queria que o tempo passasse mais lento. Que os sentimentos não mudassem com o vento. Que as pessoas não morressem. Que minha amada conhecesse meus avós. Que as rugas só aparecessem na hora do banho.

No meu tempo, as coisas eram mais intensas. Fotografias eram reveladas, álbuns emboloravam. Observava meu pai, furioso com as partidas do Corinthians. Tinha eu que, fazer as lições de casa para comer bolachas recheadas. Sem microondas, minha mãe cozinhava. Pesquisas eram feitas na biblioteca. Ria quando meus irmãos apanhavam e, por isso, apanhava também. Porém, a gente defendia um ao outro. Era o mundo contra a gente. Era a gente contra todos. Amigos, amigos, o futuro a parte. Hoje falta amor e cumplicidade. Sobra inveja e competitividade.

Hoje, falta tudo. Faltam crianças para brincar. Árvores para trepar. Faltam programas educativos na televisão. Faltam gibis e revista para colorir. Faltam piolhos e gozação. Faltam motivos para sorrir. Mas, do que adianta se lamentar? O mundo, qualquer hora dessas, irá acabar! Infância querida. Até esqueço que sofria de asma. Que passava dias no hospital. Que vi pessoas amadas partindo, sem eu entender o porque. Até esqueço de mim, esqueço de você. Não sei como irei morrer, tampouco a idade. Contudo, a forma mais lenta e dolorosa, deve ser morrer de saudade.

sábado, 17 de outubro de 2009

5h33 (Nota-se uma nota).

Eram cinco e trinta e três da tarde. Guilherme havia marcado as seis, com seu cabeleireiro. Quando olhou no relógio, calçou seus sapatos, rapidamente, apanhou o guarda-chuva e saiu. Com tanta pressa, deixou cair uma nota de dez, bem ali na calçada, quando retirava as chaves do casaco para fechar o portão.

Após alguns minutos, dona Clarice que sempre passeava com sua cadela no fim das tardes – exceto as terças, pois era dia de seu filho mais velho lhe visitar – percebeu que a cadela farejou algo. Ficou surpresa quando viu a cédula. Olhando para todos os lados, apanhou o dinheiro às pressas e partiu. Passando em frente à casa de doces da Margarida, dona Clarice não pensou duas vezes, gastou todo dinheiro achado em alfajor. Disse as gargalhadas para Margarida que, hoje iria assistir o penúltimo capitulo de sua novela preferida, comendo alfajor ao lado de sua cachorrinha.

Foi só dona Clarice cruzar a saída, que Margarida agradeceu a Deus pela venda. Ela precisava completar o dinheiro do aluguel que havia vencido no dia anterior. Não tinha feito uma venda sequer naquele dia. Faltava, exatamente, a quantia gasta por dona Clarice para completar o montante. Então, Margarida gritou por Wagner, seu filho mais novo, entregou-lhe o dinheiro do aluguel. Orientou o garoto a levar o valor juntado para o Francisco Abreu, dono do cortiço da rua onze e do estabelecimento alugado por Margarida. O menino pegou todo o dinheiro, subiu em sua bicicleta e saiu cortando os carros pela avenida.

Há duas quadras da rua onze, Wagner é acuado por dois garotos. Eles o seguraram pelo colarinho e arremessaram o menino no chão. Ao cair, o dinheiro se espalhou pela rua e os garotos roubaram Wagner. Ele tentou impedi-los. Desferiu um soco na barriga do maior, mas, apanhou dos moleques bem ali que, ainda, partiram com sua bicicleta.

A diante, os garotos pararam para dividir o dinheiro. O maior aproveitou a distração do outro para esconder uma nota de dez. À partilha foi feita, o garoto maior mandou o menor para casa, dizendo que iria vender a bicicleta. Já era tarde, o garoto não havia almoçado, aproveitou que tinha um dinheiro a mais e parou na padaria do Gilmar para comprar alguns pães, frios e leite.

Gilmar finalizou o expediente após a venda, já estava fechando o caixa quando chamou Marina para efetuar seu pagamento. A garota que o ajudava nas vendas, na limpeza e na contagem de mercadoria, se alegrou com a remuneração adiantada. Tirou o avental, deixou as anotações de lado e saiu correndo, agradecendo o chefe. Jorge não aprovou a atitude da garota que, ainda, estava em teste.

Marina colecionava revistas de moda. Passou na banca de jornal e empregou uma nota de dez em duas revistas, eram os dois últimos exemplares que faltavam a ela.

Após quinze minutos, Jorge, o dono da banca, fechou o negócio e foi para casa. Sua mulher lhe esperava, com a comida posta a mesa. Quando cruzou a porta, sentiu o cheirinho do feijão tropeiro, que se misturava com o aroma da carne de panela. Tirou os sapatos e pendurou o chapéu, entrou na cozinha e beijou sua esposa, elogiando o delicioso cheiro do jantar. Antes de colocar a comida no prato, entregou o dinheiro do dia para sua mulher, pois, deveria depositá-lo pela manhã. Ao contar todo dinheiro faturado, ela retirou do chumaço uma nota de dez e disse que era para pagar a costureira.

Com o termino do jantar, a esposa de Jorge olhou no relógio e disse que iria até a casa de Joana, a costureira. Chegando lá, a senhora já estava de combinação, mas, mesmo assim, atendeu o portão. A esposa de Jorge foi logo se desculpando pelo incomodo, entregando o dinheiro para Joana. Elas conversaram um pouco e Joana entrou para assistir o penúltimo capitulo da novela.

Não demorou muito e, mais uma vez, soou sua campainha. Era Guilherme. O rapaz havia deixado para ajuste, um paletó. O colarinho estava descosturado, os ombros desalinhados e as mangas estavam com botões em falta. Tudo ficou por dez, disse Joana. O rapaz não tinha trocado e deu à senhora uma nota de vinte. Joana apanhou o dinheiro e subiu as escadas dizendo que, se ele tivesse passado minutos antes, ela não teria troco. Guilherme apanhou o paletó e o troco, agradeceu e foi para casa.

Começou a chover assim que Guilherme chegara a sua rua. Já era tarde, porém, havia algumas pessoas nas calçadas e uma ambulância estacionada. Ele estava cansado, mas, por curiosidade, perguntou o que havia acontecido. Contaram que dona Clarice tinha se empanturrado de alfajor por toda a tarde e sua diabetes se agravara, devido idade avançada ela não resistiu e morreu. Guilherme lamentou, dizendo que dona Clarice era uma boa pessoa. Não demorou e Guilherme se retirou, despedindo-se dos vizinhos.

Enquanto o arroz cozinhava, Guilherme foi tomar banho. Mas, mal se molhou e ouviu alguém lhe chamando no portão. Ele se trocou, calçou seus sapatos, rapidamente, apanhou o guarda-chuva e saiu. Era Margarida, a doceira, junto com seu filho Wagner. Margarida fora amiga da falecida mãe de Guilherme e, por essa intimidade, o rapaz tinha muito carinho por essa senhora. Convidou a mulher e o garoto para entrar e ofereceu café com bolachas. Ambos negaram, Margarida agradeceu com um sorriso e disse que não queria tomar o café, para não tomar o tempo de Guilherme. Ela relatou ao rapaz que, nesta tarde, o menino Wagner fora assaltado por dois marginais. Os moleques levaram a bicicleta do garoto e, pior, levaram todo o dinheiro do aluguel. Francisco Abreu, não se comoveu com a história e pediu que saísse de sua loja na próxima segunda-feira. Margarida então pediu em empréstimo, a quantia do aluguel. Guilherme foi ao quarto e juntou o montante preciso, deu a Margarida que lhe agradeceu chorando.

No dia seguinte, Guilherme se aprontou para o trabalho. Levantou-se mais cedo para comprar um jornal. Ao passar na banca, reparou que Jorge estava abatido. Sem titubear, Guilherme perguntou o que lhe aborrecia. Disse Jorge que desconfia de sua esposa. Acredita que ela voltara a jogar bingo. Contou que o vicio era tamanho. Pois, ontem mesmo, mal terminaram o jantar e sua mulher saiu para rua, apressada, com uma nota de dez. Guilherme lamentou, dizendo que, apesar dos pesares, a esposa de Jorge é uma boa pessoa. Não demorou e Guilherme se retirou, despedindo-se do amigo.

Mais a frente, passou pela padaria do Gilmar, que estava varrendo a calçada. Guilherme o cumprimentou e indagou o porquê sua nova ajudante não estava tratando da limpeza. Gilmar relatou que dispensou os serviços da menina. Pois, após receber o adiantamento do salário, ela o deixou antes mesmo de fechar o caixa e saiu sem alinhar as latarias. Guilherme lamentou, dizendo que, independente de qualquer coisa, a garota é era uma boa atendente. Não demorou e Guilherme se retirou a caminho do trabalho, despedindo-se do amigo.

Guilherme trabalhou o dia todo, só parou três vezes. A primeira, para ler seu jornal. A segunda pausa, para almoçar. E, a terceira e última, para fumar um cigarro. Quando olhou no relógio, já eram cinco e trinta e três da tarde. Vestiu seu paletó, rapidamente, apanhou o guarda-chuva e saiu. Com tanta pressa, deixou cair uma nota de dez, bem ali na calçada, quando retirava as chaves do bolso para fechar seu consultório.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Desconfio de Deus (Artista ateu).

Quando observo a natureza, seus contrastes, suas flores, os animais, todas as cores, desconfio que Deus seja um pintor. Um artista incompreendido. Que trafega do concreto ao abstrato. Que pinta o universo sem ter base em algum fato.

Ao ver grandes rochedos, vales, cataratas, um universo alinhado, os planetas, as estrelas, tudo lado a lado, desconfio que Deus seja um arquiteto não renomado. Que conhece de engenharia e decora cada canto do cosmo, sendo original e muitas vezes copiado, seja pelo homem ou pelo diabo.

Seria Deus, realista em um mundo de sonhos ou sonhador em um mundo real? Não sei a resposta. Mas, se eu tivesse alguma chance, uma única oportunidade de perguntar algo a Deus e se pudesse fazer, somente, uma única indagação, questionaria: - Deus, pra quem você ora?

Desconfio que Deus não precise de oração, ele não crê em nenhum Deus. Pois, ele acredita ser Deus. E, todo artista é assim. Todos os artistas são ateus.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Refletido.

"Quando lhe vi pela primeira vez, meu desejo e atenção fora aguçado de forma inesperada. Repentina. Certeira. Arrebatadora. Subitamente, senti vontade de agarrar-lhe. Mas, idiota eu em sonhar com a possibilidade de possuir alguém tão sublime. Olhos, boca, pele, pêlos, seus gestos, meus desejos. Fascinante és tu", disse Narciso, ao espelho.

domingo, 23 de agosto de 2009

Tentativas de versos - Porto da vida

Alma que brilha, feito branco em neon.
Amoxilina tem gosto de batom.
O baú de minha cama, soa como cajón.
Sinto-me alto, no mais elevado cume.
Mesmo com tanta alergia, amo o aroma do teu perfume.
Tem cheiro de mulher, jasmim e ciúme.

Piso no branco, piso no preto. Não piso na linha, senão eu tropeço.
Conto meus passos, mas, só até dez. Mexo meus dedos, ponta dos pés.
Gosto de câimbra, de ouvir Caymmi. Anseio por samba, aos que desatinem.
Não suporto poemas, poesias e rimas. Palavras formosas, uma embaixo outra em cima.

Fria madrugada em Havana. Uma dose de conhaque com cacau. No banco de trás ou na cama? Guiados por um caminho passional.
Armada de amor atingiu-me o peito. Sobrancelhas arqueadas. Atenção desviada. Minha devoção e meu respeito.
Habitava em mim um vazio sem igual. Descobri que este vácuo era do tamanho de Deus.
Enxerguei que, o maior conselho que podemos dar a alguém, chama-se: EXEMPLO.
Devo devolver o dom autodidata aos meus. Era o que procurava. Renovação em meu templo.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Sem tempo.

Preciso ouvir aquela coleção de cd`s "Como administrar seu tempo". Porém, estou sem tempo pra isso.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Na labuta.

Quando se trabalha infeliz, só o quinto dia é útil.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Depois do fim - Ultimo ato

Histórias de viajantes

Já era tarde do dia, quando chegou a Contagem. Exausto e morrendo de sono, Gilberto procura um hotel para tomar um banho, ligar para sua casa e dormir algumas horas. Mas, antes disso, resolve ir a um banco para sacar dinheiro, com objetivo de ir até a casa de Osvaldo.

Após isso, ele pergunta sobre o endereço para alguns taxistas, que o orientam como chegar lá. É afastado do centro, mas, fácil de encontrar.

Depois de ir ao banco, não demora muito e Gilberto encontra a rua da casa de Osvaldo. Ele fita as casas, uma a uma, percebe que se trata de um bairro muito carente. Algumas crianças brincam nas calçadas e acenam para ele. No final da rua, próximo a esquina, em um portão de madeira, muro chapiscado e com o número quinhentos e vinte e dois. Era ali a casa de Osvaldo, Gilberto enfim a achou.

Em frente à casa, Gilberto estaciona sua van e desce. Bate palma uma, duas, três, algumas vezes e chama por Marília. Demora um pouco, mas ela ouvi o chamado e grita que já irá atendê-lo. Marília abre o portão e diz, educadamente que, se for um vendedor, seja lá do que, ela não teria dinheiro e, pouco menos, interesse em comprar. Gilberto sorri e diz que não estava ali para vender nada, seu intuito era pagar uma dívida. Espantada, Marília pergunta sobre essa tal dívida. Gilberto diz que tem uma dívida com Osvaldo e que prometeu pagar a dívida à ela. Ainda sem entender, Marília pergunta mais uma vez sobre a dívida, se foi um serviço ou uma venda de peças mecânicas, enfim, quando foi que Gilberto viu Osvaldo pela última vez. Gilberto então explica, fala a Marília sobre o combinado e que ele estava ali para honrar o compromisso.

Antes de terminar a explicação, Marília bate o portão em sua cara, entra para sua casa e, aos pratos, diz que a brincadeira fora de muito mau gosto. Gilberto percebe o portão semi-aberto e entra se explicando, abrindo a carteira e contando as notas. Marília enxugando as lágrimas com seu avental, fala a Gilberto que seu marido, Osvaldo, havia falecido há alguns anos.

Gilberto se desculpa e diz que entrou na casa errada, que tudo não passava de um mal entendido, havia se confundido com as casas parecidas. Nesta hora, uma menina chorando, cruza a cozinha e abraça a mãe, dizendo que sua irmã puxou seus cabelos. Quando Gilberto ouve a garota falando o nome da irmã, Jéssica e Marília a consolando, chamando-a de Rebeca, ele fica espantado. Retira o bilhete do bolso de sua camisa e confere o endereço com Marília. Gilberto, com a voz tremula, pede para Marília uma foto de seu marido. Sim, trata-se da casa de Osvaldo.

Ao entregar a foto, Marília explica que ele fora morto por assaltantes em um restaurante de estrada. Após ter recebido por um serviço prestado, dois marginais abordaram Osvaldo e pediram o dinheiro. Como são pobres e suas filhas queriam um presente de natal, Osvaldo hesitou, foi então que, numa luta com os bandidos, um deles cometeu um disparo fatal.

Gilberto observa a foto e chora ao ouvir o relato de Marília. Dá o dinheiro a ela e, mais uma vez, conta como conheceu Osvaldo. Marília chora bastante, se lamenta pela perda do marido, fala da dificuldade que passam e diz que acredita na história de Gilberto, pois, Osvaldo era mesmo muito caridoso e prestativo. Eles se abraçam e choram bastante. Gilberto vê a foto sobre a mesa e, com um semblante de felicidade, agradece.

Após um café e um longo papo, Gilberto atravessa o quintal, cruza o portão e, enxugando suas lágrimas, entra em sua van carregada de peças, malotes e experiência de vida.

Contaram-me essa história em um restaurante de estrada, próximo a Corumbá, Mato grosso do Sul. Algumas pessoas me confirmaram tudo. Disseram-me que foi o próprio Gilberto que, em outra viagem, passara ali e contou sobre este ocorrido. Porém, outras pessoas falaram que se trata, apenas, de mais uma de tantas histórias contadas por viajantes.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Depois do fim - Quarto ato

Amizade de estrada

Um dos rapazes interrompe a conversa, dizendo para Gilberto que sua viagem acabara por ali. O assalto é anunciado. Gilberto, coitado, não tinha dinheiro algum para oferecer, só tinha o dinheiro que seu chefe deu antes da viagem. Com armas em punho, os rapazes pediram calma para ele, alertando sobre as conseqüências caso reagisse. Sem hesitar, Gilberto tira o envelope e entrega aos rapazes, dizendo que era só o que poderia oferecer. Os rapazes, rindo, dizem que sabiam, pois, já tinha conferido que na van só tinha algumas peças e embrulhos. Em estado de choque, Gilberto só observa os rapazes caminhando até o Chevette e partindo pela estrada a fora.

Visivelmente abatido, Gilberto entra no restaurante e seu pedido já está posto sobre a bancada. Ele chama a garçonete e informa sobre o trágico ocorrido. Porém, antes que terminasse, um rapaz fala pra garçonete que pagará a conta. Ele bate a mão no ombro de Gilberto e diz para ficar tranqüilo. Gilberto olha para o rapaz e aceita sem excitar. Pois, nessa altura do campeonato, a fome falava mais alto. O rapaz pede uma coxinha, uma cerveja e senta ao lado de Gilberto.

Mesmo com vergonha, Gilberto agradece o gesto do rapaz e lhe conta sobre o assalto. O rapaz lhe interrompe dizendo que viu a cena, mas, não pode interferir, pois, não possui arma e, com isso, não costumava reagir a assaltos. Só reagiu uma vez pra nunca mais. Ele se apresenta, seu nome é Osvaldo, é mecânico, casado com Marília, pai de duas lindas meninas, Jessica e Rebeca. Diz que está ali, pois, se trata de um ótimo ponto para exercer sua profissão. Comenta que está familiarizado com manutenção de caminhões e que, desde muito tempo, trabalha com isso.

Passa-se duas horas, cinco refrigerantes, três cervejas, dois salgados, sete fichas para Junkie Box e alguns minutos. Gilberto e Osvaldo parecem amigos de infância. Gilberto revela sua aflição e nervosismo em ser pai, não vê a hora que isso aconteça. Porém, lamenta em ser pobre e, confessa a Osvaldo, que queria pagar ótimas escolas para o filho, convênio médico, enfim, mesmo assim se esforça para dar o melhor que puder. Osvaldo acha as declarações cômicas e familiares, brinca dizendo que já passou fome e que existe algo bom em ser pobre, pois, não se gasta muito em pasta e escovas de dente. Diz que sabe bem o que ele está sentindo, pede para Gilberto ter fé. E, é neste clima de descontração que Osvaldo acerta tudo e os dois saem do restaurante.

Gilberto quer mostrar a Osvaldo, algumas fotografias que estão na van. Eles vão até o veiculo e, então, percebem que os assaltantes furaram o pneu dianteiro do lado esquerdo do carro. Nervoso com a situação, Gilberto chuta a roda e maldiz os bandidos. Osvaldo pede por calma, pois, ele ajudaria a consertar o carro. Acredito que essa amizade repentina fora bastante salutar para Gilberto, pois, além de se oferecer para pagar o pedido no restaurante, Osvaldo também ajudara com sua van.

Após alguns minutos, o carro está pronto para seguir viagem. Gilberto agradece muito e lhe oferece uma carona. Osvaldo diz que ficaria por ali, descansaria após ter ajudado seu novo amigo. Movido pela gratidão, Gilberto lamenta por não ter dinheiro para pagar o serviço e o lanche. Osvaldo fala que o lanche já foi pago com uma ótima conversa e pela amizade de estrada, porém, pergunta pra Gilberto se ele cruzaria por Contagem. Gilberto diz que sim, que este é seu destino, Osvaldo fala que mora lá e, então, sugere que Gilberto pague pelo serviço levando o dinheiro até sua casa, pois, não sabia quando iria rever sua família. Gilberto ficou entusiasmado. Tomou logo um papel e uma caneta para anotar o endereço. Afirmou a Osvaldo que, assim que chegasse a Contagem, a primeira coisa que faria, seria entregar o dinheiro nas mãos de sua esposa.

Gilberto partiu dentro da escura noite. Chateado pelo que aconteceu, mas feliz por ter encontrado ajuda. Seu celular estava sem sinal e seu rádio não pegava. Colocou um CD para relaxar e continuou a peleja.

sábado, 13 de junho de 2009

Amigo do Jack e do Johnnie

Um dia desses, li em um cartaz uma frase, digamos, interessante. Era sobre consumo alcoólico:

"Cuide bem de seu melhor amigo. Seu fígado".


Ela, a frase, me levou a uma simples reflexão. Cheguei a comentar com um velho que, estava sentado ao meu lado esperando o ônibus:

" - Gostava do tempo em que o melhor amigo do homem era o cachorro. Eu tinha dois, mas, morreram de velhice, creio eu. Você, digo, o senhor têm cachorros?".

Ele, o velho, balançou a cabeça, negativamente, e voltou a ler uma revistinha, intitulada: "Revista Vivência".

terça-feira, 9 de junho de 2009

Depois do fim - Terceiro ato

Pedaço de pamonha

Tudo está pronto. O carro está carregado com os malotes, com as peças novas e o tanque está cheio. Gilberto apanha o endereço com seu chefe, verifica as rodas e o pneu reserva, os freios e o óleo, coloca o terço no retrovisor e confere se o guia está em baixo do banco. Antes de partir, seu chefe lhe deseja boa viagem e lhe dá um envelope com dinheiro, dizendo que uma parte dessa quantia era para o Gilberto comprar uma lembrança para sua esposa grávida e um macacão do Corinthians para seu filho que está chegando. Com a outra parte, pediu a Gilberto que trouxesse algumas garrafadas da mais pura pinga de Minas, para dar a toda chefia da empresa. Ambos caíram na gargalhada e, assim, Gilberto partiu.

O dia estava quente, Gilberto cruzava a cidade para chegar à rodovia. Carros, motos e caminhões, todos fazem parte da orquestra do trânsito, regendo a sinfonia de buzinas, palavrões e motores. Chegando à Dutra, ele resolve ligar o ar e aumentar o som do rádio. Uma canção do Tim Maia o faz lembrar seus pais e de sua infância. Já perceberam como é comum, quando estamos em uma viagem, fazermos reflexões e lembrarmos nosso passado? Creio que é por isso que fazemos analogia entre a morte e uma viagem. Como um filme de toda a vida, que passa diante de nossos olhos quando estamos partindo.

Então... Mantendo a direita, ele avista uma placa para saída a Fernão Dias. Sua viagem começa a passar certa solidão. Parece que se arrepende de ter aceitado está missão. Passa-se algumas horas, o relógio do painel marca cinco e quatorze, mas o locutor da rádio diz que é cinco e vinte e dois. Gilberto está com fome, mas só vê lanchonetes que vendem derivados de milho. Desde criança, Gilberto detesta milho.

Certa vez, quando tinha oito anos ou menos, na casa de sua tia Ana - irmã mais velha de sua mãe - Gilberto comeu escondido um pedaço de pamonha que fora encomendada pela vizinha. De longe, seu tio observava tudo, alcoolizado e enfurecido com o garoto, bateu nele até cansar seus braços gordos. O repúdio foi tanto que Gilberto vomitou todo o almoço, juntamente, com o pedaço de pamonha. Ficou um bom tempo sem comer coisas feitas com milho. Ele não contou pra ninguém e, com isso, foi levado em diversos médicos para saber a causa do menino não sentir mais vontade de comer o que mais gostava. O trauma passou com o tempo, ele come algumas coisas de milho. Porém, até hoje, em outras idas à casa de sua tia, ele fica cismado em comer lá. Mas, pamonha, ele nunca mais quis, sequer, sentir o cheiro.

Voltando a história... O céu escureceu e Gilberto resolveu dar uma parada para tomar um banho, comer algo e, se necessário, dormir um pouco. Mais adiante, ele vê uma parada para caminhões, um enorme restaurante com um pequeno posto de gasolina ao lado. Ele pára, confere para ver se a carga está intacta, trava sua van e vai ao restaurante. No trajeto, ele observa diversas garotas com vinte e poucos anos, algumas com menos, acompanhadas por velhos caminhoneiros, garrafas quebradas, pessoas desconfiadas, saindo de portas escuras, falando baixo e olhando fixamente para todos os lados com a cabeça ao léu. Ele acha estranho aquele lugar, mas como já estava dirigindo por horas, resolveu recarregar as energias fazendo uma parada.

Entrando no restaurante, ele observa algumas pessoas jantando, chão sujo, poeira, teias de aranha acumulada nos ventiladores que não funcionam e uma antiga Junkie Box tocando Jhonny Rivers. Ele pergunta para garçonete se ali era Bom sucesso ou Lavras, ela não fala nada e, somente, pergunta o que ele deseja. Sem graça, ele pede uma Coca em lata bem gelada e um lanche de pernil sem cebola.

Enquanto espera pelo pedido, Gilberto pede um café e caminha até a porta do restaurante para tomar um ar e ver o vai-e-vem da rodovia. Caminhando de um lado para o outro, ele é observado por dois rapazes que estão próximos a um velho Chevette. Ele percebe e acena, com a intenção de se familiarizar. Os rapazes respondem com um sinal de positivo, conversam entre si e caminham em direção de Gilberto.

Eles o cumprimentam e perguntam se é ele que está com a van. Gilberto responde que sim. Os rapazes comentam que perceberam que ele não era dali, que a placa era de Curitiba. Gilberto diz que a empresa é do Paraná, porém ele trabalha na unidade de São Paulo e está indo para Contagem. Sem nenhuma desconfiança, Gilberto conversa com os rapazes. Mas, mal sabe ele das intenções dos dois.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Depois do Fim - Segundo ato

Sinal da cruz

Uma casa pequena. Três ou quatro cômodos, se não me engano. Uma varanda espaçosa e um quintal nos fundos. Alguns quadros na parede. Fotos sobre a estante da sala. Na entrada, uma cortina estampada e uma música alta.

Gilberto diminui o volume do rádio e, sorrateiramente, vai à cozinha onde sua mulher está. Ela olha para trás, assim que ele cruza a porta, balançando a cortina com gomos de bambu e, com um forte abraço, ela o recebe. Um pouco apressado, Gilberto segura na mão de sua esposa, puxando-a para o quarto. Ele explica sobre a viagem repentina e pede ajuda para aprontar algumas trocas de roupas, escova de dente e toalhas limpas.

Ele vai à cozinha, toma um copo de café amargo com algumas bolachas de água e sal, corre para o banheiro para escovar os dentes e o cabelo e, ao olhar-se no espelho, chora. Fica ali por alguns minutos. Não se sabe o motivo. Nada passa por sua mente. Simplesmente, ele chora. Chora como nunca tivesse chorado. Aperta a descarga para sua esposa não ouvir seus prantos. Enxuga suas lagrimas, puxa o fôlego e sai.

Na sala, sua esposa lhe espera sentada no sofá, segurando um terço na mão direita com a bagagem entre as pernas. Gilberto senta ao lado dela e diz para não se preocupar, seria uma viagem rápida e uma ótima oportunidade para mostrar serviço aos seus superiores. Ela lhe dá o terço, faz o sinal da cruz em sua testa e lhe beija forte, sem falar nada. Gilberto sorri com o canto da boca e lhe mostra a língua. Os dois riem e ele cruza a saleta em direção a rua.

sábado, 30 de maio de 2009

Depois do fim - Primeiro ato

Dejavú

Contarei o que me lembro dessa história. Ouvi isso em uma viagem que fiz, faz muito tempo. A riqueza de alguns detalhes, é fruto de muita atenção, de fatos inventados e de algumas perguntas, pois, fiquei curioso com tudo que ouvi e, depois de algumas cervejas, todos são amigos e falam demais. Enfim, essa história é de um rapaz muito trabalhador. Definitivamente, não existe alguém mais atarefado que Gilberto. Carregamentos de malotes. Entregas relâmpagos. Documentações importantes. Tudo isso e um pouco mais, são os ingredientes presentes na rotina de trabalho deste jovem rapaz. Mas, não se preocupe. Ao que parece, ele adora o que faz.

Tem uma vida humilde. É casado. Dois cachorros e um aquário. Está entusiasmado, pois, logo será papai. Trabalha em turnos dobrados para oferecer uma vida confortável a sua amada mulher e seu primeiro filho, que está por vir. Seu chefe, um Srº judeu, admira sua determinação. Oferece bonificações, horas-extras e outras condições.

Em uma sexta-feira como todas as outras, Gilberto chega cedo à empresa, para carregar sua van e sair para as entregas rotineiras. Como de costume, coloca os pacotes com maior valor nos fundos do veiculo, embrulhados em um plástico e presos com um forte elástico. Em seguida, confere o romaneio e lista os locais do qual irá durante ao longo do dia. Direciona-se até a sala do Srº Fábio, seu encarregado, para solicitar a autorização de sua partida e apanhar as notas para o posto de gasolina conveniado com a empresa. Ele espera, pois, o Srº Fábio está no telefone, confirmando uma nova venda.

Enquanto aguarda, Gilberto admira algumas fotografias de um calendário, fixado à parede central. Imagens de diversos lugares, belas paisagens e monumentos históricos. Por um instante, Gilberto tem a impressão que já esteve em algum desses lugares, reconhece algumas fotos e têm lampejos de lembranças, pessoas que não conheceu, fatos que jamais presenciou, momentos que nunca existiu e uma vida que nunca viveu. Ele acha estranho, mas não se importa. Afinal, dejavú é algo comum, sempre temos, uma hora ou outra.

Pois bem... Ao desligar o telefone, o encarregado de Gilberto se levanta da cadeira e o cumprimenta, com um sorriso estampado em seu rosto, lhe deseja um bom dia, perguntando de sua vida e das expectativas da chegada do primeiro filho. Aparentemente feliz com a preocupação do chefe, ele responde que está ansioso e não vê à hora de realizar o sonho de ser pai. A conversa se estende por mais um ou dois minutos, porém Gilberto interrompe o assunto para ir às entregas da escala. Fez bem, pois motoristas ganham por hora e não por empreitada.

Enfim... O Srº Fábio verifica as anotações, referente ao telefonema anterior. Abri a gaveta de sua mesa e retira alguns papéis, olha para Gilberto e diz que ele não irá fazer as entregas que estavam previstas. Pois, acabou de receber um contato e acabara de fechar uma venda de tamanha importância e, extremamente, urgente. Por confiar no rapaz e saber de sua agilidade neste processo, gostaria que Gilberto fosse lá. Com ar de prontidão, porém, boquiaberto, Gilberto balança a cabeça positivamente e pergunta que horas irá partir. Entregando alguns documentos para Gilberto, Srº Fábio lhe informa que se trata de uma longa viagem e que ele partirá agora mesmo. Mandará carregar a van com a nova encomenda. Enquanto isso, pediu a Gilberto que fosse para casa apanhar uma mala. A entrega é em Contagem, Minas Gerais. O rapaz ficaria alguns dias fora.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Somos uma nação.

Corinthians tem mais que lutar
Seguir a sua diretriz
Com raça buscar ser feliz
Jogar pra ganhar e sorrir

É hora da gente se unir
É hora de erguer as mãos
O preto e branco vestir
Cantando uma só canção

Vai Corinthians, vai pra cima Timão!
A gente vibra, a gente torce, a gente abre o coração.
Que torcida, somos uma nação!
A gente vibra, a gente torce, a gente joga com o Timão.

terça-feira, 14 de abril de 2009

Crônicas do absurdo – A metáfora da vida

Se pensarmos bem, a vida é um pedaço de papel. Um filho nasce, corre a enfermeira com um pedaço de papel para limpá-lo. Um tempo depois, corre o padrinho pro cartório, para colocar o nome da criança em um pedaço de papel. Quando morre, a mesma coisa. Se o defunto não colocou seus bens em um pedaço de papel, afirmados e divididos, a confusão está armada. Cartinhas para a amada também dependem de um pedaço de papel. Anotações, telefones, suicídios, endereços, higienização, embrulhos de presentes, a carne para o churrasco, declaração, enfim, papel, papel e mais papel. Papel pra lá, papel pra cá. Pedaço de papel que vale algumas roupas, com a cara estampada de alguém que não sou eu. Que vale uma casa. Diversas árvores. Comida. Caráter e caranga. Que vale o fracasso ou o apogeu. Cole-o, recicle-o, gaste-o, rasgue-o e grampeie tudo. Papel pode ser limpo, às vezes pode ser sujo. Comestível. Preso por um clipe ou no fio da navalha, lá está o papel. Quem não tem papel, resolve com pau ou pedra, mas, não é a mesma coisa. Incabível. São tantos fatos. Tantas situações entre a elite ou a escória. Tinta no papel decide uma vida. Escreve uma história. Leis e decretos. Irreal ou concreto. O esboço. A arte final. No lápis de um poeta. Da mente de um maluco. Votos eternos antes do anel. Definitivamente, a vida pode ser resumida em um simples pedaço de papel.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Tentativas de versos - No ímpeto.

Sem destino, cruzava o estado. Calado.
Impossível esquecer as dores.
Devido aos amores, não via as cores.
Passava por placas, luzes e rosas.
No dia seguinte, acordou no guard-rail.
Entre estilhaços, flores e prosas.

segunda-feira, 30 de março de 2009

Tentativas de versos - A deixa.

Bastou uma marca carmim na gola engomada do amado. Insatisfeita com o fato, largou o fardo e calçou os sapatos. A atriz desistiu de seus atos e virou uma meretriz.

terça-feira, 24 de março de 2009

Crônicas do absurdo - Morte e vida suburbana.

Esperando o coletivo, me deparei com um mendigo. Ele estava chapado. Encostou do meu lado, meus olhos arregalados, por ele foram encarados.
Estendeu-me a mão, ofereceu-me um trago. Ficamos conversando por horas, não esqueço sua lição. Disse que, cada um de nós, independente da cor, do sexo ou religião, todos sem exceção, temos uma divina missão.
Lembro-me também, de uma de suas teorias. Disse-me que somos o resultado da soma de nossos sentidos.
Somos o que vemos.
Somos o que ouvimos.
O que digerimos.
O que tocamos.
Somos os aromas que sentimos.

Com ar intelectual, sem indagar quem eu sou, repousou sua mão em meu ombro e sorrindo me falou:
- Partindo dessa premissa, podemos traçar o perfil psicossocial de alguém. Basta analisar, pode reparar. Com raízes, ao quadrado, não importa! Pode crer, meu bom rapaz. Some tudo que faz com seus sentidos e o resultado será você.

Curioso, perguntou-me:
- Que livro é este em suas mãos? Quais são os filmes que assiste? As canções que ouve, quais são? Das conversas que participa, quais os assuntos falados? Ou então, prefere ficar calado?
O que passa entre seus dedos? Somente, dinheiro? Ou prefere os cabelos de sua amada? Seu tato é de fino trato?
Cheiras o quê? Perfumes doces? Poluição? O aroma instigante de uma boa refeição?
Tem gosto refinado para beber? Pode ser suco, água, vinho, tanto faz. O que convém a você?

Ele se levantou e, como um pai, me disse:
- Olhe filho, avalie as coisas boas da vida. Pondere todos os seus sentidos. Pois, com este pensamento e intenção, pode ter certeza, você encontrará um sentido, uma eterna devoção.

E, antes que eu falasse qualquer coisa, ele foi embora. Bem ali, na minha frente. Ele partiu e não voltou.

quinta-feira, 19 de março de 2009

Video de divulgação - Blog MEIO PAU!


video

A idéia deste blog, é afirmar que o pensamento crítico só tem valor quando é construtivo. Pois, os que se calam, se escondem, se omitem, não vivem e não modificam seu cotidiano. Além disso, não participam da história, de sua própria história.
Aos que tem algum grito preso na garganta. Aos que traz um ideal comum, escondido atrás das portas. Aos que fazem preferência em reformular, a cada segundo, seu olhar perante o mundo, do que ter idéias enraizadas. Aos que têm a certeza da necessidade de gritar mais alto. Este espaço é de vocês.

Manifestem-se!

Em uma postagem de setembro de 2005, descrevo melhor a idéia deste blog. A postagem que me refiro, chama-se: Nota de existência.

Abraços a todos.

domingo, 8 de março de 2009

Graças a Dante.

Teve gente que reparou e tentou disfarçar, eu sei. Apontou e cutucou quem estava do lado para ver também.
Um grupo de jovens gargalhou até doer à barriga. Um deles chegou a rolar no chão de tanto rir.
Quem estava na fila da pipoca, observou de longe. Os mais curiosos, correram até lá.
Algumas pessoas ficaram sem jeito, não acharam graça e, simplesmente, ignoraram o episódio.
As garotas que saiam do balé, viram de perto. Os rapazes do futebol, também. Pois, toda quinta-feira, a saída das atividades extra-sala, é realizada pelo portão lateral.
Teve duas senhoras, coitadas, que ficaram chocadas. Ambas taparam seus olhos para não ver nada.
Corre-corre, desespero, cadernos caídos, telefonemas, folhas pelo ar, suor e lágrimas. Alvoroço e comentários por todos os lados.
O pessoal da reforma assistiu de camarote. Estavam nos andaimes pintando a fachada e trocando algumas telhas quebradas.
Formou-se uma imensa roda. Algumas pessoas prestativas e bastante preocupadas. Outras nem tanto, só queriam saber o que estava acontecendo ao certo.
Durante dias, este foi o principal assunto pelos corredores. Não se falava em outra coisa.
Não vi, absolutamente, nada do que aconteceu. Posteriormente, também não fiz muita questão em saber.
No ato do acaso, estava eu entretido demais, lendo a Divina Comédia, sentado debaixo duma árvore, um pouco longe do fato. Afastado de tudo. Porém, observando a todos, como sempre faço.

quarta-feira, 4 de março de 2009

Julia.

“- Um, dois, três, quatro... Nove, dez! Quem não se escondeu, não se esconde mais. Não vale se esconder atrás”.

Julia, como o nome já diz, esbanja energia. Não gosta de pente. Recentemente, perdeu um dente da frente. Quando perguntam: - Julia, você gosta de tomar banho? Ela mente.

Brinca com suas bonecas, corre pelas ruas de paralelepípedo em seu bairro, adora visitar sua avó e briga com os meninos que jogam bola no campinho atrás da escola. Realmente, Julia é uma menina contente.

Seus olhos são da cor do céu, pele da cor da lua. Veste-se com longos véus e acha que médico não cura.

Se Julia fosse minha, ela não seria tua. Não faria tranças, brincaria na chuva, seria criança com doce candura. Andaria de bicicleta, acreditaria em Deus, comeria chocolate, geléia e fritura.

Venha cá! Me diz uma coisa, minha cara Julia: - Porque não gosta de seus cabelos?

Seus cabelos são feito fogo, ao sopro do vento arma. Assim, como tua alma, Julia. Que és pura, irradia e acalma.

domingo, 1 de março de 2009

Meus óculos.

Era sábado à noite, eu não esperava nada. Mesmo assim, fui a tal festa. Parece asneira.
Lógico, fui sem meus óculos. Pois, assim estaria mais bonito. Meu Deus! Que grande besteira.
Todos bebiam demais. Ela, mais do que todos. Quando aconteceu, pensei que fosse um sonho. Porém, logo partiu com outro.
Ela morava longe, já era bem tarde e o rapaz estava de moto. Tudo bem, isso eu suporto.

Lamento até hoje. Que pena, eu estava sem meus óculos quando tudo aconteceu.

Ela me beijou e me mordeu. Tentou colocar as mãos dentro da minha calça, mas, não deixei. Fiquei acanhado, todos estavam na sala também.
Eu sentia o toque dos seus dedos frios. O cheiro de seu doce perfume. Sua voz, ainda ecoa em minha mente.
Enfim, todos estes sentidos me fazem lembrar aquela noite quente.

Só não lembro o rosto de minha amada, o tom de seus cabelos, a cor de sua pele, seus olhos... Nada.

Quando lhe encarei, te vi sem foco. Meu amor, por favor, me perdoe. Eu estava sem meus óculos.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Passo-a-passo.

Passo a noite em claro, logo amanhece. Emaranhado de pensamentos, passa-se o tempo. Vejo os raios de sol passar entre as frestas de minha janela.

Sem compasso, faço um circulo com minhas passadas. Conto os passos que me levam da cama ao banheiro. Ao passar as mãos no rosto, relembro meu passado. Passo todos os dias em frente daquele bar, no final da passarela.


Ultrapasso minha sombra. Em cada canto, ouço o canto descompassado de alguns pássaros que passam sobre mim. Passando pelas mesmas pessoas, relembro os mesmos prazeres e choro pelos mesmos pesares.


Passava as pontas dos dedos entre seus cabelos despontados. Passam-se as horas, os dias, alguns anos, tanto faz. No final, tudo se torna lembranças, tudo fica para trás.

sábado, 31 de janeiro de 2009

Entreato.

Cuspo salivas em versos soltos. Outros, ficaram perdidos na memória. Esqueci de anotá-los, foi-se embora, até nunca mais, eu os perdi. Do mais, é isso. Por isso que cuspo frases em avesso e confesso em reverso. Termos e palavras que, uma a uma, se contrapõem e compõem outros versos. Os temo, porém, são os únicos que tenho. Ficou em carne viva. Uma dor em cada escarrada que, alivia-me o peito, mas, não adiantara de nada. Viva a carne. A navalha passa, fria e direta. Observo sem graça, ouço passos e ultrapasso cada regra da vida frágil e etecetera.
“Se a intenção era partir sem levantar suspeitas, pronto, a intenção acabara por aqui”.
Essas foram às palavras que murmurei ao esbarrar em algo, que estava ali para ser quebrado. Algo frágil como uma vida. Não vi mais nada, de repente tudo escureceu. O desequilíbrio é inevitável quando se anda nas pontas dos pés e, também, quando se caminha sem saber quem tu és, sem um apogeu. Entre fatos, atos e boatos, vivo no que acredito. Cuspo o que tem que ser cuspido. Engulo o que me agrada. Em cada trago, eu trago a tona à verdade que não soma com tua mentira. Regurgito na tua cara o que é incabível, no meu estômago e na minha frágil vida. Estava escuro, mas, eu sabia. Riquezas? Não. Tenho caráter, serve? Fecharam-se as cortinas. O fim fora breve.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Sexo oral.

Na mocidade, o contato. Tesão que ardia a pele.
A labareda virou faísca. Chama tal, se apagou.
Em meio às cinzas, fagulhas.
Entre as tentativas, lamento.
O coito se perdeu no tempo.
O envelhecimento veio à tona.
Um ser jovial em pensamentos.
Eu e você, mais que uma soma.
Sem ensaios. No improviso improvável.
Incertos de onde vamos parar.
Nosso intuito sempre foi e será, se amar e amar...
Fico faceiro quando me chamas.
O que nos resta é o diálogo.
Este, sempre nos deixou feliz.
Ensinou que amor não se apaga.
Chama que brilha. Fogo em brasa.
Gozo. Nariz com nariz. Conversas. Palavras.
Vocábulos que dão prazer.
Sua voz que me seduz.
Versos e frases que excitam.
Em cor carmim, a meia luz.
A fala em sol que alimenta meu ser.